Há exatamente dois anos concluíamos uma
etapa importante de um longo e exaustivo processo que culminou com a realização
da Conferência Extraordinária de Políticas Culturais de São Bernardo do Campo. Em
junho de 2016 aprovava-se conjuntamente entre administração pública e sociedade
civil, a minuta do documento que viria a constituir-se no Projeto de Lei do
Plano Municipal de Cultura da cidade.
O Plano é um desejo de muito tempo da
comunidade cultural e de parcela expressiva de cidadãos que entendem a
importância da cultura em suas mais diversas dimensões, seja no sentido se sua
importância simbólica, econômica e social. Quando entrasse em vigor, permitiria
um melhor planejamento da ação cultural no município, a readequação de
atividades, programações e espaços culturais, assim como um redimensionamento
de recursos materiais e financeiros mais condizentes com as necessidades reais.
Também o Plano garantiria esses recursos e planejamento respeitados como lei
municipal com prazo de dez anos, tornando-os política pública de fato e não
simplesmente um apanhado de eventos e serviços definidos através da boa vontade
e preferências da gestão de plantão.
O processo de construção passou por
inúmeras etapas e contou com a participação dos mais diversos segmentos,
coletivos, associações, grupos, artistas, gestores públicos e privados,
agitadores culturais e munícipes interessados. Veio se constituindo ao longo de
anos e de conferências anteriores que contribuíram para a definição e o acúmulo
de objetivos, estratégias, metas e ações que se completaram no documento final.
Na preparação até a plenária final que aprovou o documento ocorreram centenas
de reuniões. Não apenas as reuniões da comissão organizadora composta de forma
paritária entre gestores públicos e sociedade civil, que realizaram-se
semanalmente ao longo de meses. Mas também por segmentos, por coletivos, por
entidades, servidores municipais. O processo é bem conhecido e fartamente
documentado em textos, fotos e outros materiais.
Não foi fácil se chegar à aprovação
final. Se por um lado todo o processo de diálogo com a comunidade e abertura de
canais de participação avançou significativamente a ponto de garantir a
oportunidade de controle social na elaboração do projeto, internamente à
administração municipal foram inúmeras as dificuldades que tronaram o processo
lento em sua execução. Infelizmente, as políticas de cultura ainda não são reconhecidas
como prioritárias ou estratégicas, mesmo em governos com características mais
progressistas e democráticas. Avançamos no diálogo e na abertura à participação.
Na administração e planejamento não conseguimos dar mais agilidade ao processo.
Porém, se foi difícil concluírem-se todos
os trâmites até a aprovação final e encaminhamento como projeto do Executivo,
foi no Legislativo que o Plano sofreu seu maior revés. Tendo chegado à Câmara
ao final de um ano difícil e eleitoralmente complexo, em meio à transição da
gestão municipal, o plano sequer foi discutido e votado pelos vereadores. As
sessões finais foram frustrantes, com agentes culturais tentando obter pelo
menos explicações razoáveis de parlamentares e seus assessores e recebendo como
resposta um total descaso pelo esforço de tanto tempo.
O projeto do Plano de Cultura de São Bernardo do
Campo segue devidamente engavetado na Câmara Municipal. Num momento em que a
administração de Orlando Morando na Prefeitura cumpre o compromisso de
enfraquecer e mesmo desconstruir avanços importantes que foram duramente conquistados
em gestões passadas. Muitas ações previstas no Plano já estavam em andamento na
gestão anterior e outras buscavam se efetivar, porém encontravam-se implantadas.
Ações importantes e reconhecidas nacionalmente como o Centro Livre de Artes
Cênicas – CLAC já não existem após desmonte da gestão Morando. O Plano aprovado
teria dado a esta e outras tantas ações caráter de lei municipal. No Brasil pós
2016 duas coisas cada vez menos observadas: garantias legais e política pública
com participação popular.


Comentários
Postar um comentário