José Saramago Aprendemos das lições da vida que de pouco nos servirá uma democracia política, por mais equilibrada que pareça ser nas suas estruturas internas e no seu funcionamento, se não tiver sido constituída como raiz de uma efectiva e concreta democracia económica e de uma não menos efectiva e concreta democracia cultural. Dizê-lo nos dias de hoje há-de parecer um exausto lugar-comum de certas inquietações ideológicas do passado, mas seria fechar os olhos à realidade não reconhecer que aquela trindade democrática – a política, a económica, a cultural -, cada uma delas complementar das outras, representou, no tempo da sua prosperidade como ideia de futuro, uma das mais entusiasmantes bandeiras cívicas que alguma vez, na história recente, foram capazes de abalar consciências, de mobilizar vontades, de comover corações. Hoje, desprezadas e atiradas para o caixote do lixo das fórmulas que o uso cansou e deformou, a ideia de democracia económica deu lugar a um mercado ...
Cultura e Democracia Popular