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Trabalho: subsistência, satisfação pessoal e liberdade criativa*


Quando pensamos em 'qualidade de vida no trabalho', quase que imediatamente nos deparamos com o seguinte questionamento: qual, de fato, é o sentido que “o trabalho” tem em nossa vida. Por que, para quê, ou mesmo para quem, exatamente o exercemos cotidianamente? Alguém pode logo dizer: ora, eu trabalho para me sustentar e a aqueles que de mim dependem. Também há quem entenda o trabalho como fonte de satisfação pessoal ou ascensão social. Ou mesmo quem diz conseguir conciliar tudo isso ao mesmo tempo.

O conceito de trabalho que aqui adotamos é aquele que o define, prioritariamente, como um ente econômico e social. O trabalho, definido sob este prisma, o da economia política clássica, é elemento fundamental na geração das condições necessárias para nossa própria existência, tanto do ponto de vista das necessidades mais imediatas - alimentação, saúde, vestuário, habitação - como na reprodução de nossas relações humanas e sociais.

Assim, o trabalho também se constitui enquanto conceito histórico, uma vez que essas mesmas relações sofrem mudanças com o passar do tempo. Basta tomar como exemplo as próprias condições de trabalho e os meios envolvidos para a produção de mercadorias, assim como a distribuição e circulação de bens e serviços de uma forma geral. Na contemporaneidade, essas condições são muito diferentes daquelas que conheceram nossos pais e avós, há 30, 50... 100 anos.

Na sociedade tecnológica atual o trabalho adquire novas formas cada vez mais avançadas e complexas, porém nem sempre mais favoráveis à nossa tão almejada 'qualidade de vida'. Muitas vezes acabamos por nos deixar absorver por um ritmo de jornada que nos escraviza, mais do que nos torna senhores de nossas decisões e práticas no trabalho, fazendo com que essas atividades deixem de ser algo prazeroso e edificante como desejaríamos, para se tornarem um verdadeiro suplício.

A filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), em um de seus principais trabalhos “A Condição Humana”, faz uma brilhante distinção dessa contradição entre o “trabalho que nos escraviza e o que nos liberta”. A noção “Vita Activa” apresentada por ela em sua obra, à luz de uma confrontação do conceito de trabalho, da antiguidade clássica à teoria moderna, define três tipos de atividade humana: “labor”,“trabalho”e “ação”, que respectivamente estariam relacionados ao suprimento de nossas necessidades biológicas, a fabricação de objetos e de serviços que altera nosso ambiente natural; a liberdade criativa. Esta última, a única capaz de nos tornar sujeitos da ação social e política. Arendt a nomeia de “condição humana da pluralidade”.

Retomando aqui nossa proposição inicial, verificamos que a complexidade do conceito, não nos impede de avançar – pelo contrário, nos fornece melhores condições de análise – diante da necessidade de uma resposta acerca do sentido de nossas atividades cotidianas. Nosso dilema, nesta segunda década do milênio que apenas se inicia, não se resume à busca de uma resposta acerca de como melhorar a “qualidade de vida” a partir do trabalho. Cumpre saber como, e agir de modo a equilibrar: subsistência, satisfação pessoal e liberdade criativa.

* Publicado inicialmente com o título: "O sentido do trabalho e a melhora da qualidade de vida" na Revista Trabalhar a dor. Barueri, Ed. cotidiano em Palavras ( agosto de 2011).

Referências bibliográficas:

ALBORNOZ, Suzana. O que é Trabalho. São Paulo, Editora Brasiliense, 1994.

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2000.

DOWBOR, Ladislau. O que Aconteceu com o Trabalho, São Paulo, SENAC, 2002.

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